A Grande Inversão

O mundo está mudando muito e para melhor, a cada dia que passa, apesar de vários de seus habitantes insistirem em repetir os mesmos erros, apontando justificativas tantas vezes infantis na tentativa vã de convencer a si mesmos de que seu caminho é fruto de uma escolha democrática e civilizada. 

Por isso nem tudo está indo bem, estamos vivendo uma era de grandes equívocos. Uma época de grandes realizações e ganhos, mas ao mesmo tempo morre mais gente vitimada pela obesidade do que pela fome. Presenciamos uma enorme inversão de valores. 

O mundo era governado por ditaduras e lutava por liberdade, agora é permissivo e a luta é por controle dentro das famílias. Pessoas compravam drogas farmacêuticas em drogarias convencionais para curar suas doenças, agora compram drogas nas esquinas ou pátios de escolas para curar sua frustração decorrente do grande vazio interior. Passaram a chamar essa saciedade provisória de “alegria”, “euforia” ou simplesmente “grande barato”. 

Antigamente os mais afortunados entravam nas melhores universidades para estudar, conquistar o tão sonhado diploma de doutor e pertencer à invejada elite da sua cidade. Hoje, qualquer um cursa uma universidade para fumar maconha nos campus ou corredores, achando-se mais descolados e corajosos do que os outros. 

Nem todos entendem para que servem as virtudes, os valores humanos e espirituais.  Talvez por isso procurem os hospitais quando seus pulmões e fígados estão nas últimas e as igrejas ou centros espíritas quando já estão desenganados pelos hospitais. Mas quando melhoram, voltam para a farra novamente.

Por isso eu fico emocionado quando vejo a inocência angelical na face das crianças ou cenas tão belas que vemos nos atos de compaixão humana.

Num bairro periférico um menino vai buscar a única lata de conserva do armário para dividir em partes iguais entre quatro cãezinhos pulguentos e sem dono, no meio da rua. Em outro lugar um senhor sexagenário retira suas sandálias azuis e doa para uma mendiga maltrapilha que pisoteava o calçadão, tentando aguentar o quentura do cimento. Longe dali um policial, que ajudava no resgate de vítimas em um prédio incendiado, caiu sufocado pela grande quantidade de fumaça em seus pulmões, sendo carregado nos braços por um jovem vendedor de celular que passava por lá. Mais além, um grupo de pessoas vestidas de palhaço brincava e fazia várias crianças enfermas rirem com muita alegria.

São milhares de bons exemplos todos os dias que fazem a diferença nesse mundo conturbado. É isso que faz esse mundo melhor a cada dia, não a luta incessante dos estudantes da USP e de outras universidades em prol do seu direito de fumar maconha em paz, nem tampouco o suor dos que lutam pelo direito ao aborto, menos ainda a saliva daqueles que falam palavras bonitas e praticam atos tão feios.