O que merecemos?   

Um dia desses eu estava lendo num livro de História que na Roma antiga havia uma prática utilizada pelos imperadores para agradar o povo, fazê-lo esquecer o alto nível de desemprego e das misérias sociais. Então eles agradavam com festas, bebidas, comidas e com espetáculos nas arenas, onde gladiadores lutavam uns contra os outros para entreter a multidão.  Ao mesmo tempo essa gente se utilizava de grandes construções para, ao dizer que estava criando frentes de trabalho para a população, enriquecia com muitas obras públicas, afinal os construtores eram eles mesmos e pagavam-se com os recursos públicos. Chamavam a essa prática de “política de pão e circo”.

As festas e badalações custavam muito caro para os cofres públicos, mas tudo isso valia a pena para os governantes, pois assim deixavam o povo como que anestesiado, embriagado, mesmo vivendo numa sociedade empobrecida de valores morais, problemas sociais e tantas outras realidades duras. Isso aconteceu há cerca de dois mil anos.

Bem, o tempo passa, muita coisa muda, mas nem tudo. Ainda hoje permanecem os problemas sociais, assim como as espertezas dos governantes para ludibriar o povo sofrido e incauto.

Atualmente modernizaram a “política do pão e circo” ao associá-la ao “jogo do contente”. Para não chamar a atenção dos descasos e omissões, fazem festas caras pagas com o dinheiro público; para que não percebam os vastos recursos públicos sendo exauridos pelo ralo da corrupção, patrocinam ainda mais diversão regada com comes e bebes. 

Assim é que, para cada coisa que deveria ser, fazem outra menor, um mimo, um reles agrado, do mesmo jeito que oferecemos um docinho para a criança parar de chorar.

Em certas cidades é comum darem empregos temporários para compensar favores políticos, pagarem empréstimos de campanha em troca de favorecimentos comerciais. Dizem que numa certa cidade não tão distante, a abertura do ano letivo foi realizada com uma grande festa regada de vinho, whisky, cerveja, show de bandas com seus apimentados rebolados, desfile de moda de grifes caras e outras excentricidades. Isso foi realizado com muito esmero para poder substituir os simpósios, palestras e cursos educacionais. Dizem também que os professores ficaram satisfeitos... Pão e circo? Jogo do contente?

Monteiro Lobato uma vez disse que um país se faz com homens e livros. Eu digo que um país de verdade se faz com educação, livros e pessoas conscientes. Será que vamos nos contentar mesmo com os docinhos e mimos? Nosso preço é assim tão baixo? 

Não merecemos o melhor rebolado, a melhor cachaça, o mais divertido dos espetáculos. Merecemos educação, condições de trabalho decente e dignidade humana. Merecemos muito mais, eu quero sempre mais!

 

Do passado nem tudo passa
Assim é que hoje o tudo é nada...

Alguns brincando de coronel,
outros representando o seu papel
entupindo úteis desinformados
de amarguras cheirando a mel,
são docinhos recheados de fel.

Atualmente a criança brada
cadê meu futuro que não chegou?
Da pergunta ninguém se agrada
É cada um com seu andor.

Nesse lugar tudo ainda falta
Até vergonha que já morreu,
Se procurar por honradez
Não vai achar, já se perdeu.