Os Invisíveis

-“Ser ou não ser, eis a questão!”. Essa não é somente a dúvida pessoal de Hamlet, personagem sheakesperiano, mas também a de muita gente.

O que realmente somos? Para tentar entender vamos tomar como exemplo uma pequena história de um trabalhador qualquer. Vamos emprestar-lhe o nome Jorge, mas poderia ser qualquer nome, em qualquer lugar. 

Para efeito de ilustração vamos imaginar as seguintes cenas: 

Jorge chega ao trabalho bem cedo e toma para si as tarefas daquele dia. Mais tarde todos são chamados diante de um problema a ser resolvido, dar opiniões, encontrar soluções. De um lado fala o diretor, diz qualquer coisa e é quase aplaudido; depois fala outro diretor, diz quase nada e é bastante considerado. Então nosso amigo Jorge dá uma ótima opinião, mas não é ouvido, suas palavras entram por um ouvido e saem pelo outro. Foi totalmente ignorado. Isso passa, mas nem tudo passa...

Noutro momento, nosso personagem está na sala de espera de um hospital público, sente-se dolorido, intenso mal-estar. O atendimento não é por ordem de chegada como anunciado. As pessoas mais influentes por status social ou parentesco são reconhecidas e levadas para o atendimento. Alguns nem param, chegam e vão direto para o consultório médico. Jorge fica sentado no banco duro até o final da tarde, é o último, o atendente não notou sua presença, nem ouviu seus lamentos de dor. Nosso amigo parecia ser algo transparente.

Outra cena, Jorge acorda triste, de mau humor. Passa horas em meio a lembranças e devaneios. Lembra-se da infância sem natais e da adolescência sem namoradas apaixonadas, todas duraram alguns encontros, até descobrirem que ele era o filho da faxineira da escola! Os professores perguntavam seu nome todos os dias... Quase sempre lembravam os nomes dos “mais inteligentes” ou dos mais terríveis, mas ele era inexpressivo, invisível.  Algumas frases ecoam em sua mente “Esse tal de Jorge, veio hoje?”, “Vim sim, estou à sua frente, professor...”, “Ah, não te vi”. Não viam.

Agora nossa cena é mais atual, ele está diante de um órgão do poder público, precisa urgentemente de ajuda para um grave problema e não sabe a quem recorrer. Eis que vem aquele político no qual votou em todas as eleições, inclusive já o recebeu em sua casa, apertou sua mão e até levou tapinhas nas costas. Jorge na frente dele, acena, chama pelo nome, quase grita, mas o tal político fala com um e com outro e nem vê nosso personagem falando e gesticulando bem à sua frente. Jorge, o invisível.

As cenas como essas são muitas, todos os dias, com muita gente, daria para fazer um filme, mas nossa intenção é apenas chamar a atenção para a vida real. O que somos para nós mesmos, o que somos para a sociedade e o que realmente somos? Não posso lhes responder, mas apenas me inquietar com as injustiças sociais que nós mesmos impomos todos os dias. 

Para terminar, deixo essa reflexão:

 

“No Brasil, pobres não existem!
Quem existem? Os que usam marcas de grife;
Os que consomem tudo, roupas, caviar e bife;
Os que ostentam títulos e carros conversíveis.
Os outros até existem, mas são invisíveis!”