Simples, mas é raro

Depois de algumas décadas de existência eu ainda continuo tendo muitas curiosidades, e como todo bom curioso, ando me corroendo por dentro com vontade de responder essas tão íntimas indagações.

De todas as curiosidades, nenhuma é mais vívida e matreira do que essa: se todo dinheiro público fosse empregado com honestidade e decência, como seria nosso país, nosso estado, e, particularmente, nossa cidade? Esclareço que respeito a opinião que o caro leitor tem neste exato momento que lê esse texto, mas, infelizmente, admito que não tenho uma resposta pronta.

Tento entender o problema a partir de fatos que permearam minha vida no decorrer desses longos anos de vida. Um deles foi uma afirmação de um amigo, colega de trabalho em uma escola há cerca de oito anos. Ele queria casar, e como era de se esperar, construiu uma casinha à custa de muito sacrifício, aula a aula, dia a dia. Quando, enfim, conseguiu, perguntamos como ele lograra aquela façanha, visto que seu rendimento era de um e meio salário mínimo. Ele explicou assim: “Encontrei os tijolos com preço baixo depois de pesquisar muito, as telhas adquiri numa boa pechincha, a madeira foi comprada depois de pesquisar o melhor preço em toda a região, o piso foi parcelado em trinta prestações. Como não desperdicei um centavo, pude pagar tudo com mensalidades suaves e depois de muito trabalho. Pensei que fosse impossível, mas quando terminei a casa, percebi que se nosso dinheiro for bem empregado, tudo é possível”.

O dinheiro desse meu amigo foi “bem empregado” e por isso ele tem uma morada digna e decente. Foi lembrando-me desse fato que passei a acreditar que se todo o dinheiro público fosse administrado por pessoas sábias e honestas, cuidando dos recursos públicos como se cuidassem de um filho ou da própria mãe, com respeito e dignidade, nossa vida seria muito melhor.

Cá para nós, começo a pensar que se os gestores públicos administrassem municípios e estados como aquele meu amigo administra sua vida e sua morada, os recursos seriam suficientes para colégios e professores tão bons como os da rede particular, hospitais funcionando como as melhores e mais respeitadas clínicas, repartições e espaços públicos tão bem planejados e cuidados como os shopping centers. Afinal, esses lugares são funcionais e lucrativos porque foram feitos e são mantidos com recursos de pessoas que sabem valorizar o que são deles, sem desperdícios, sem desvios, sem privilégios. É simples, mas é raro.

Voltando à realidade, temos cargos políticos ocupados por pessoas que sequer estudaram alguma coisa, prefeitos que desconhecem administração e legisladores que não sabem criar leis, por isso voltam-se ao assistencialismo, afinal, essa prática lhes dá votos. Enquanto isso aqueles que estudam, se capacitam e são excelentes administradores, correm da gestão pública, pois sabem que não serão votados nas próximas eleições. Tchau e bênção! Não diga “amém”.

 

Na recatada sociedade
todos querem contribuir
com sua tal honestidade
em tamanha irmandade
para a cidade progredir.

 

Mas chegando ao poder
Querem tudo para si
e não param de comer,
beber, passear e vestir
com o dinheiro da cidade
que se encolhe, até sumir.