Vem para a rua quem tem ideologia


- Ideologia! Eu quero uma para viver”, dizia Cazuza em sua música Ideologia. Segundo alguns, esse grande nome da música brasileira não era apenas um cantor, era também um filósofo. Já que estamos exagerando, podemos dizer que ele também era um pouco sociólogo, pois na letra dessa música, ele percebeu que as grandes mudanças sociais quase sempre começam nos movimentos populares, principalmente naqueles que tem os jovens como protagonistas.

É preciso mesmo ter ideologia para viver, pois diferentemente disso é  viver amortecido pelos acontecimento ou pela falta deste. Temos muita que não presta e não temos muita coisa que são necessárias. Temos muita corrupção, violência e desigualdade; não temos salários, saúde, educação decentes. Enquanto isso estivemos esse tempo todo muito mais preocupados com o final da novela ou com a cor dos enfeites na nossa festinha do que com o presente e o futuro das nossas próprias vivências.

-“Eu vou pagar a conta do analista / Pra nunca mais ter que saber quem eu sou”, continua Cazuza. E não é mesmo verdade? Estivemos tempo demais “pagando o pato” para que nos digam a quem devemos imitar: a roupa que está na moda (e está porque alguma celebridade disse isso), o corte no cabelo do jogador de futebol, o jeito de falar chiado dos atores globais... Afinal, ser de outro modo, ser você mesmo como é e como gosta de ser, é estar por fora.

-“Pois aquele garoto que ia mudar o mundo / Agora assiste a tudo em cima do muro”. Aqui nos pede para lembrarmos de quando éramos adolescentes, aqueles jovens que esperavam acabar com o que era velho e implantar o império da beleza, da verdade e do bem-estar, um mundo novo. Mas crescemos e nos tornamos iguais aos nossos pais (lembrando outra canção...). 

-“Meus heróis morreram de overdose / Meus inimigos estão no poder”. Neste ponto alguns até entendem o seu recado, pois deixaram de esperar e perceberam que seus ídolos da música, da política, do esporte e de outras áreas apenas estavam apenas representando os seus papéis. Que a maioria deles, como pessoas, eram e são tão vazias quanto uma bola perdida e levada pelo vento.

Ideologia! Qualquer uma, para viver... Pois foi assim que a humanidade arregaçou as mangas, saiu às ruas e provocou uma série de transformações sócias. 

A maioria dos direitos trabalhistas não foram dados por Getúlio Vargas há quase 80 anos só porque ele cismou e decretou em lei. Como foi que a democracia retornou ao país? Foi depois de muitos jovens irem às ruas em manifestações diversas, enfrentando a polícia, a tortura e a morte, gritando por aquilo que tanto desejavam, idealizavam, como a volta da democracia e o fim da corrupção e da ditadura.

O mesmo aconteceu em prol do voto direto e praticamente por todas as melhorias sociais e políticas do Brasil e do mundo.

O problema é que depois que a democracia voltou e que todos podemos dizer e fazer qualquer coisa desde que seja de direito, passamos a não saber o que fazer e mergulhamos numa era de acomodação e de vazio existencial. 

Antes ninguém podia dizer o que pensava, agora podemos mas não sabemos o quê; antes não podíamos fazer nada que não fosse permitido, agora achamos que tudo é permitido e é “proibido proibir”, a permissividade toma conta de tudo. Antes havia uma ideologia atrás de qualquer coisa, agora ninguém é maluco para querer entender a filosofia implícita na música de pseudoartistas como Michel Teló, em letras que desafiam qualquer possibilidade de entendimento, tais como “Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego / Delícia, delícia, assim você me mata / Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego”... E ainda repete isso mais umas tantas vezes.

Outra canção já nos apontava que esse fenômeno social, o da dormência nacional, está anunciado no nosso querido Hino: “deitado eternamente em berço esplêndido”... Eternamente? Deus livre!

Não está, pois o mesmo hino diz que “o filho teu não foge à luta”! O gigante não estava eternamente dormindo, acordou e foi às ruas! É o povo brasileiro que, de tanto dormir, acordou esfomeado e sedento, buscando uma ideologia a qualquer custo; qualquer ideologia que valha a pena. Assim milhares de jovens vão às ruas com faixas e bandeiras, em prol de uma, inúmeras ou qualquer causa... Pode ser contra a corrupção, contra o aumento no preço das passagens, contra o projeto de emenda constitucional 37, contra o rebaixamento de qualquer time de futebol para a segunda divisão. Pode ser também a favor do casamento homoafetivo, a favor de mais recursos para a saúde e a educação, a favor ou contra qualquer coisa que temos falta ou em excesso. Viva o povo brasileiro, já dizia João Ubaldo Ribeiro.

Qual o fim dessa história? Bem, como em todo movimento social só saberemos bem depois disso tudo acontecer, exatamente quando as transformações tomarem corpo depois de muita luta, protestos, baixas e insistências. Então tudo isso depende do processo que está aí.

Uma coisa é certa: já estava mais do que na hora de botarmos mesmo o dedo na ferida e apertar, apertar até doer! Afinal, só quem tem o sapato apertado sabe que o calo dói. Mesmo que a gente não queira se importar com os que sentem fome e sede de justiça, com os que choram, isso não quer dizer que eles não serão consolados, porque serão, serão sim!l