Valores sem Valores

É comum ouvirmos algumas pessoas associarem pobreza com má educação ou incapacidade, o que é um grande engano e um enorme preconceito, este que vem arraigado na cultura brasileira, herdado da época dos descobrimentos, de quando os portugueses chegaram aqui e ao verem os índios nus, pelados, os tiveram por pobrezinhos e os taxaram de inocentes selvagens. 

—Olhem-nos, ó honrados lusitanos! Vemos toda a gente dessa terra a andar nus “com a mão no bolso”! Ó, Pobrezinhos! –Devem ter dito uns aos outros, naquele tempo.

—Que bom, ó fidalgo capitão! Isso quer dizer que eles são facilmente manipulados. – respondeu outro português, ajeitando seu volumoso bigode. Então, vamos tratar de tomar logo a terra deles para nós... - imagino que pigarreou e completou:  Quer dizer, para o Vosso Rei!

E assim começou nossa história... E foi esse mesmo povo, o português, quem inventou que trabalho é coisa para escravo e poder é coisa para os tais “educados”, estes que formaram uma elite ociosa, intocada e privilegiada.

Os “pelados” de hoje somos os desprovidos de riquezas, os que trabalhamos para sobreviver, comandados por uma chamada elite aristocrática detentora de todos os privilégios, educada, uns por terem frequentado as faculdades federais (mesmo que só frequentado), outros simplesmente por serem filhos de fulano ou sicrano, da família tal ou qual.

Na verdade, mesmo os que têm instrução não são necessariamente educados, como também o contrário é verdadeiro, pois vemos por aí muita gente que não teve a oportunidade de esquentar os bancos escolares e são pessoas educadas, dignas e honradas.

Podemos ver isso no comportamento geral, quer seja nas ruas ou na internet, por intermédio do Facebook e de outras redes sociais, como grupos de Whatsapp e afins.  O que dizem, publicam, nem sempre correspondem ao nível de instrução que tiveram. Também há os que, mesmo sem saber escrever as palavras e as concordâncias corretamente, não verbalizam coisas de mau gosto, pornográficas ou impróprias. 

Não é uma questão diretamente ligada ao nível escolar, de origem familiar ou da conta bancária, mas de índole. É verdade que quanto mais uma pessoa tem acesso à escola, mais oportunidade tem de se melhorar, de aprender, se educar, adquirir bom gosto e tantos outros valores. O problema é que nem sempre isso acontece.

Ouvimos impropérios a torto e a direita, em todo lugar. Palavrões se multiplicam, nas ruas, nas casas, no trabalho, com ou sem a presença de chefes, pessoas idosas, tanto faz! Quando muito, na igreja, xinga-se ao pé do ouvido, para não ser  ouvido pelo padre ou pastor. Mas xingam! Por outro lado, outras palavras tidas como “ostentosas” e bonitas, diante das transformações sociais e da informação que nos chegam, estão mudando seu valor, seu sentido. É o caso do setor político, que atualmente as tecnologias da informação tem mostrado seus desmandos e atos quase sempre vis, duvidosos e desonestos, fazendo com que a população ridicularize tal “classe”. Tanto que hoje não é estranho se alguém, quando quiser ofender ao outro, dizer:

—Seu deputado! Pior ainda, você é um senador!

O outro pode até retrucar:

—Senador é você! Pensa que não sei o que andou aprontado com os bens alheios?!

Antigamente eu e outros professores tínhamos orgulho quando um dos nossos ex-alunos se tornavam médicos, advogados, comerciantes, vereadores, prefeitos, deputados... Hoje em dia as coisas mudaram um pouco:

—Colega, você soube da última?! O Carlos... coitado, meu Deus!

—O que foi? Se matou? Foi preso? Se tornou traficante?... O quê?!

—Pior, virou deputado!!!!

 Xinga-se tanto que em muitas circunstâncias o palavrão até tomou lugar do elogio, de ênfase:

—Eta, coisa boa da *****! – grita uma dali.

—A cerveja tá gela que só a *****! – grita mais uma de lá.

Poderia ser cômico se não fosse trágico! Onde vai parar o bom senso desse povo que diz que cantar o hino nacional é cafona e sem necessidade, que diz aos berros palavrões feios e desrespeitosos  para autoridades em atos solenes (o nome já diz: “ato solene”!), esse povo que entra e sai de um lugar sem pedir licença ou cumprimentar os presentes? Educar? Ora, insisto em dizer é assim de analfabetos a doutores! 

Percebe-se claramente que instrução é diferente de educação.  Portanto, o desafio atual é revermos os caracteres culturais do nosso povo, qual caminho estamos tomando, o que devemos ajustar nessa caminhada? Fica a dica.