Lição de beija-flor

Eu queria dizer que está tudo bem, tudo em seu lugar!
Que somos todos iguais... bem iguaizinhos aos beija-flores
Que pairam sobre suas flores, cada uma em seu beijar!
Sem ter que por nenhum momento vir se preocupar
Que as flores, por ventura,  sem dúvida vai lhes faltar
Pois eles olham à volta, e só veem flores cá e acolá...
E eles pairam acima delas, para não as machucar!

 

 

Ah, mais vem um fiozinho de amalucada destemperança
Que vem logo tomando conta assim de dentro pra fora
Me diz cá juntinho do ouvido igual dengo de criança:
“Então explique sem gaguejar e muito menos sem demora 
Por que há tanto sofrer nesse mundo de desilusão,
Tanto aqui como em qualquer lugar, uns vivem na bonança
E os outros disputam os restos, um pedaço de pão”?

 

Ixi, que o juízo agora ferveu! Nem sei mais quem sou eu!
Se a pessoa que mais tem, muito mais ela ainda quer,
Num sente a dor do outro, que vive debaixo do seu pé...
Se angustiando de lá pra cá chamando por Deus,
Morrendo de medo pra não perder o que pensa que é seu,
Sem saber que quando morrer, só vai levar, e olha lá,
Tão somente e tão sem dúvida: só aquilo que aprendeu!

 

Eita, que mundo vasto, há tanto chão ou tanto pasto...
Mesmo assim os descabidos sem juízo vivem brigando
Por um pedaço de torrão, que nem mesmo dá pra cova!
De noite fazendo as treitas e de dia se mostrando casto,
Com a cabeça pegando fogo e fingindo que tá rezando,
Pensando que boniteza resolve com roupa nova...
Olha, se eu mesmo bem soubesse nem vivia assim pensando!

 

Vixe, e os tais beija-flores que inspiram tantos amores?
Pois já foi dito e acredito que nunca vai faltar flores...
Eles não querem elas não, só querem a sua doçura
Pra poder viver bem melhor, florindo todo lugar!
Vêm dizer pra gente, inteligente, evitar tantas dores
Aprender essa lição que eles vêm mansamente ensinar
Que melhor que fazer guerra, esbravejando essa bravura
É viver em mansidão, sem ilusão e beijar, beijar flores!

Osvaldo Morais